sexta-feira, outubro 19



Silêncio de Prata


Caiu desacordada. Um tanto curiosa aquela manhã. Tudo completamente paralisado, assim como o olhar da pequena. Os tons de cinza tomavam conta dos oceanos e de branco vestia-se o céu. Logo atrás, o sol e sua única tonalidade. Aqueles rasos olhos de vidro somente observavam seu redor, ultrapassando as barreiras de suas pálpebras. As palavras haviam se transformado em soluços e já não escapavam mais. A maré alta agora estava sem volume; muda. Quando tornou a se concentrar, deu-se conta. O silêncio a dominou.

Por entre o labirinto daquele vácuo sonoro, dizia adentrar, lentamente. Sua mente cantava o que lhe jurava ser a trilha sonora de uma densa overdose de reflexões. Ela havia se transformado em mais uma daquelas pedras cravadas na areia, que recebiam as ondas a todo instante sem pronunciar uma única palavra e nem ameaçar se mover. Seu grito não existia mais, apesar de sua vontade. As lembranças caminhavam, pouco a pouco, à escuridão de seu pomar. Os desejos eram agora as incontáveis pétalas da sua coleção de flores mortas.

A magia, porém, ainda lhe restava. Soprou um último suspiro que guardava em seus pulmões. Suspiro aquele que ventaneou seu mundo de volta para si. A água do mar respingou em seu pomar, trazendo de volta a cor. A aquarela que se formou despertou a fragrância de cada flor e quebrou o vidro que prendia o brilho de seus olhos. Os movimentos estavam voltando, e aos poucos a garota podia voltar a sorrir novamente. Sentia-se estranhamente bem e, por isso, preferiu continuar de olhos cerrados por mais alguns tempos.

Um calor intenso novamente a perseguia e o vento voltava a zunir. Aos poucos, seus cílios se soltavam. Espreguiçou-se. E foi então que pôde ver tudo claro, mais uma vez. O dia ainda estava por amanhecer.

quinta-feira, agosto 16


Exaustão

Desta vez já não era mais possível. Não havia mais chão em que ela pudesse se sentir firme. A opção de um dia voltar a pousar começava a se extingüir em sua cabeça, mas isto já não era motivo para lhe deixar mais cansada. Diante de um vazio absoluto e infinito, o brilho de seus lindos olhos enigmáticos iluminava seu caminho recheado de bifurcações, que também já não eram vistas com tanta clareza. Não havia um ancoradouro certo, se é que em algum momento ele realmente existiu.

O tempo era inexistente mas ela tinha pressa. O som das profundas batidas de seu coração, juntamente ao da brisa fria que agitava seus longos e escuros cabelos, dava rítmo à sua jornada sem rumo.

A pequenina, apesar de tudo, não estava só. A dor e a solidão eram apenas duas entre as tantas companhias que tomavam conta dela. Como um diamante louco, brilhava. E, sem dar ouvidos à sua consciência, gritou como jamais havia gritado com o pouco de esperança, que ainda lhe restava, de alguém surgir para lhe dar o mais agudo e mais sincero dos abraços. Por um breve momento, pensou ter ouvido algo em resposta. Não, não era eco; apenas mais uma das armadilhas que sua mente lhe pregava.

As cores se deturpavam. O seu leque de sentimentos agora havia se tornado o mais alto castelo de cartas que já vira. Curiosa, soprou. É... não foi preciso muito para que tudo se embaralhasse novamente. Seu às de copas chegou a criar asas e sair voando em meio à escuridão. Tudo se transformara em um mero jogo onde a possibilidade de desistência não existia e as regras eram estabelecidas por seu destino.

Pacientemente, a garota estudava suas jogadas. Cada uma delas era tão importante quanto cada parte de sua vida. A maioria de seus peões estava prestes a se sacrificar e os bispos, cansados. Já estava cheia de jogar, mas era necessário. Desconhecia seu adversário, porém apreciava seu modo de agir. Tudo se tornava mais confuso após cada turno. Entretanto, adquiria cada vez mais experiência. As lembranças de seus inúmeros vôos pelos céus circulavam por seus pensamentos.

Xeque. A vida se tornava um tanto quanto intrigante ao olhar calmo e observador da menina. Sentiu um calor intenso em suas costas. Olhou para trás discretamente e sorriu. O dia estava amanhecendo.

Foto: Alexandre Costa

segunda-feira, julho 16


Metamorfose

Pois é. Foi então que a garota finalmente percebeu estar sozinha. Sozinha, porém livre: leve, pairando pelas nuvens e sentindo a brisa fria que balançava seus cabelos. Percebeu também que gostava de estar sozinha; já tinha criado o seu próprio mundo, com as suas paisagens e os seus olhares.

Corria com destino ao nada. O mesmo nada que a habitava. E simplesmente nada a impedia de chegar lá. Sua sombra crescia conforme avançava e a luz do sol batia em seus frágeis olhos, que logo procuravam se fechar para tornar tudo mais fácil. Sua crina deslizava ao vento e as ondas frias daquele mar azul esverdeado davam força ao formoso alazão.

As nuvens não atrapalhavam mais. Abria as asas e deixava-se levar pelo tempo. Era o pássaro mais belo de todos. Seu canto, junto do som das ondas e do vento, formava a mais bela das sinfonias. Observava o tudo lá do alto, onde ninguém jamais esteve.

Resolveu deitar-se naquela fina e macia areia que de seu vôo já avistava, mas não por cansaço, somente para sentir o chão por alguns segundos. E sentiu.

Ela tinha tudo; tinha o mundo. Faltava-lhe companhia.

Foto: Alba Luna

domingo, junho 3


Distante

Fugia de tudo e de todos, mas não era por medo. Queria se sentir distante ao menos por uma noite.

Chegou cedo, o sol ainda estava a se pôr. Deitou naquela grama macia e fechou seus olhos, rodeados pelo perfume das flores que ali viviam. O tempo passava. Por horas e horas a garota permaneceu ali. Já era escuro mas ela vivia de suas fantasias. Por meses e meses a garota permaneceu ali. Já era outono mas ela vivia de seus sonhos. Até que então, não se sabe porquê, levantou-se.

Abriu asas e decidiu levantar vôo, até lembrar-se de que não tinha para onde voar. Deitou novamente naquela grama macia e fechou seus olhos, rodeados pelo canto dos pássaros que ali viviam. O tempo passava e a garota estava cada vez mais distante. Distante de si mesma, de tudo e de todos...

Foto: António Jorge Nunes