
Exaustão
Desta vez já não era mais possível. Não havia mais chão em que ela pudesse se sentir firme. A opção de um dia voltar a pousar começava a se extingüir em sua cabeça, mas isto já não era motivo para lhe deixar mais cansada. Diante de um vazio absoluto e infinito, o brilho de seus lindos olhos enigmáticos iluminava seu caminho recheado de bifurcações, que também já não eram vistas com tanta clareza. Não havia um ancoradouro certo, se é que em algum momento ele realmente existiu.
O tempo era inexistente mas ela tinha pressa. O som das profundas batidas de seu coração, juntamente ao da brisa fria que agitava seus longos e escuros cabelos, dava rítmo à sua jornada sem rumo.
A pequenina, apesar de tudo, não estava só. A dor e a solidão eram apenas duas entre as tantas companhias que tomavam conta dela. Como um diamante louco, brilhava. E, sem dar ouvidos à sua consciência, gritou como jamais havia gritado com o pouco de esperança, que ainda lhe restava, de alguém surgir para lhe dar o mais agudo e mais sincero dos abraços. Por um breve momento, pensou ter ouvido algo
As cores se deturpavam. O seu leque de sentimentos agora havia se tornado o mais alto castelo de cartas que já vira. Curiosa, soprou. É... não foi preciso muito para que tudo se embaralhasse novamente. Seu às de copas chegou a criar asas e sair voando em meio à escuridão. Tudo se transformara em um mero jogo onde a possibilidade de desistência não existia e as regras eram estabelecidas por seu destino.
Pacientemente, a garota estudava suas jogadas. Cada uma delas era tão importante quanto cada parte de sua vida. A maioria de seus peões estava prestes a se sacrificar e os bispos, cansados. Já estava cheia de jogar, mas era necessário. Desconhecia seu adversário, porém apreciava seu modo de agir. Tudo se tornava mais confuso após cada turno. Entretanto, adquiria cada vez mais experiência. As lembranças de seus inúmeros vôos pelos céus circulavam por seus pensamentos.
Xeque. A vida se tornava um tanto quanto intrigante ao olhar calmo e observador da menina. Sentiu um calor intenso em suas costas. Olhou para trás discretamente e sorriu. O dia estava amanhecendo.
Foto: Alexandre Costa
9 comentários:
Estou totalmente sem palavras. O texto está maravilhoso, é uma daquelas narrativas em que se uma palavra for mudada, perde todo o seu encanto e magia.
Superou em qualquer aspecto os outros textos desse blog, que por sinal já são excelentes.
PARABÉNS!
o que acontece quando nós ficamos sem palavras? quando a gente nao sabe explicar direito o que o texto nos fez sentir ou algo assim?
sei lá, pe, voce é magico :)
te amo!
Realmente, algo surpreendente!
Amei o texto!
Quem dera eu escrever assim!
MUITO BOM MESMO PEDRO!
AMEI!
beeijo
Pensar que nós somos e vamos ser o alguém que dará o abraço é confortante, imaginar que a própria menina que vivia na solidão que seus próprios pensamentos pode estar ao seu lado hoje é algo no mínimo estranho, porém ao mesmo tempo incrível.
Não considerando a vida como um jogo, mas sim fazendo uma analogia, todo dia estamos "jogando" assim como a menina jogava.
Enfim saber os limites de nosso próprio raciocinio é algo impossivel, mas felizmente é possivel é saber a finitude a onde queremos chegar no jogo da vida.
Que você continue fazendo de simples palavras, sonhos.
Parabéns.
Abraços!
ahn, diante de um texto desse eu realmente fico encabulada de te mostrar as minhas criações :x
sei lá, você realmente sabe como brincar com as palavras.
parabéns, loverboy ;]
Pê, fiquei um tempinho sem vir aqui e quando vim...que surpresa! Que belas palavras, que admirável percepção tem esse meu jovem primo. Parabéns!
QUANDO TU FOR PUXA O BEK PRA FAZER ESSES TEXTOS ME CHAMA!!!!
Brisadao! NADA MAIS !!!
Simplesmente LINDO!
Quando for publicar o primeiro
livro, dedica pra mim?
Beijo.
Sim, temos traços de um bom narrador neste blog. Talento e inclinação há, agora é trabalhar.
Sds,
Jr
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